sexta-feira, 3 de novembro de 2017

História do Povo de Deus

Referência bibliográficas

BALANCIN, Euclides Martins. Texto integral. 7 edição. São Paulo. Editora Paulus. 2005

Dados bibliográficos do autor e de sua obra.

Euclides Martins Balancin escreveu além da presente, outras obras, como “Como Ler o Evangelho de Marcos – Quem é Jesus?”, 1991, Ed. Paulus, “Guia de Leitura dos Mapas da Bíblia”, 1987, Ed. Paulinas, “Deus Pai e Misericórdia”, 1998, Ed. Paulinas, “Como Ler o Livro do Êxodo, o Caminho para a Liberdade”, 2001, Ed. Paulus, “Vinde Espírito Santo”, 1997, “O Espírito e Senhor e dá a Vida”, 1997, Ed. Paulus, “Bíblia Sagrada Antigo e Novo Testamento – Edição pastoral”, 2017.

Buscamos junto à obra cuja resenha se apresenta as referências sobre o autor Euclides Martins Balancin. Nada foi localizado. Ligamos para a Editora Paulus e declararam que não tinham informações sobre o autor cujas obras são públicas há uma década. Tentamos localizar através do Google e nada, nem nas redes sociais e nem na Wikipedia. Ficamos nos perguntando sobre a importância que o autor tem para a editora que tem no biblista Ivo Storniolo talvez o principal tradutor de Euclides. Aliás, tentamos localizar Ivo Storniolo e descobrimos que faleceu em 2008.

Resumo

O leitor desde o início da obra é advertido sobre como será apresentada a história do povo de Deus. Menos complexa, sem muitas informações com datas, e com mais histórias e fatos, o que implica em dizer que o passado é lembrado na Bíblia de maneira popular ao tempo em que vê os acontecimentos como instrução de Deus que liberta e que corrige como faz lembrar o autor.

O povo de Deus teria se deslocado em data incerta, provavelmente entre 1950 a 1300 a.C. e procuravam ficar longe das cidades-estados o suficiente para não serem tributados. Preferiam uma vida livre, longe da opressão.

Essa movimentação, se contada aos olhos da fé, implicam em dizer que foi Deus quem deslocou o povo de Deus até Canaã. (Dt 26, 4-5 e Gn 12-36).

Nesse movimento migratório, a fome foi o que motivou o povo de Deus se deslocar até o Egito (Gn 41, 50 e 42, 7) e, mais precisamente em Gessem, ao norte, onde estavam sendo construídos armazéns, houve a revolta do povo que sentia se oprimido em relação ao sistema tributário imposto pelo Faraó Ramsés II.

Moisés foi o líder e libertador daquele povo e após muita dificuldade conseguiu retirar o povo do Egito em direção a Canaã.

Aos olhos da fé, a intervenção do Deus dos hebreus, que é o mesmo de Abraão, Isaque e Jacó, foi o real vencedor de uma batalha contra as divindades egípcias, retirando o povo da opressão.

Antes de intervir para libertar os hebreus da opressão do Faraó, Moisés fugiu para o deserto e lá encontrou a mulher com quem casaria e o seu sogro Jetro foi o responsável por ensiná-lo a administrar todo aquele povo que ele conseguiu libertar.

O encontro de Moisés com Javé iniciou a identificação de um Deus único, cujo nome tem um significado até hoje desconhecido.

Ao atravessar o deserto nesse processo de fuga do Egito, Moisés encontrou descontentamento, uma vez que no percurso dessa viagem faltava o básico para o povo que estava acostumado com pouco no Egito, mas nunca sem nada o que comer.

Aos olhos da fé essa passagem pelo deserto e a provisão com alimentos como o maná e codornizes decorreu da intervenção de Deus (Dt 26, 4-10).

Interessante destacar que em 1200 a.C dois grupos de migrantes, um vindo do Egito e o outro em fuga das cidades-estados e que se localizavam no Monte Sinai, se uniram em Canaã em tribos, que eram organizações sociais formadas por famílias agrupadas em associações protetoras, onde essa união visava uma organização voltada à defesa dos interesses comuns, inclusive com a celebração de festa, casamentos e decidiam fazer guerra ou celebrar acordos de paz.

Numa visão religiosa, essa condução para Canaã e uma disponibilização de terras dependia diretamente da vontade de Deus (Dt 30, 15-20).

As cidades-estados entravam regularmente em conflito, o que importou em destruição de algumas delas, na planície, território mais fértil, que passou a ser ocupado pelas Doze tribos de Israel, criando-se a Confederação das Doze Tribos.

Diante dessa aglomeração as leis se impunham como necessidade e já existia o Decálogo (Ex 20, 1-17) e a ele acrescentou-se o Código da Aliança (Ex 20, 21-24, 18) e o Código do Deuteronômio (Dt 12, 26).

Em Siquem, relata-se uma assembleia decisiva onde foram decididas questões políticas, econômicas e sociais e o comprometimento uníssono de fidelidade com Javé, isso tudo sendo analisado pela fé significava o Projeto de Javé para um povo justo e fraterno.

Esse projeto de participação partilha, fraternidade e justiça foram sendo enfraquecido com a presença dos filisteus que avançaram pela costa de Canaã e com a coligação de Azoto, Ascalon, Gaza, Gat e Acaron passaram a pressionar o povo de Deus fazendo-os depender política e economicamente desses invasores. De outro lado, as cidades-estados avançavam com os edomitas, moabitas, midianitas, amonitas e outros. Não bastasse isso, a idolatria foi a pá de cal que enfraqueceu a Confederação.

Isso ocorreu porque Javé era considerado o Deus libertador, e os cananeus voltaram a adotar outros deuses que estavam voltados especificamente para a sobrevivência econômica do povo, como deus da agricultura, da chuva, da terra, da fertilidade e tantos outros. Agora, vendo pelos olhos da fé, essa decadência ocorreu justamente porque houve descumprimento, desobediência à Aliança firmada com o Deus único, Javé (Jz 2, 2-23. 3, 1-6).

Diante da crescente ameaça de invasão e desestabilidade da Confederação, houve o clamor por um rei. Sim, o povo de Deus queria, nos mesmos moldes dos outros povos ter alguém que centralizasse o poder e desenvolvesse também uma estratégia de defesa do país. Assim como os demais povos que tinham reis, tiveram que assumir um sistema tributário para sustentar o rei, a corte e todo o projeto que seria desenvolvido, colocado em prática e mantido para defesa do país (1 Sm 8, 1-9, 8, 10-22). E assim é que foi elevado a Rei Saul (1 Sm 8, 22).

Há três versões para sua indicação. Ou foi por unção, ou por sorteio ou por aclamação, sendo esta última a mais aceita, por ser mais antiga e razoável.

Saul foi um rei guerreiro e destaca-se a sua batalha contra os filisteus. Davi surge na história do povo de Deus como um jovem que toca instrumentos musicais, valente e que derrotou Golias, o gigante filisteu. Sua popularidade acabou por causar ira em Saul que tentou a todo custo matá-lo. Davi refugiou-se e, entre os menos favorecidos conquistou a posição de líder em uma revolta contra os poderosos que não partilhavam com os necessitados (1 Sm 22, 6-23). Pelos olhos da fé, Davi conquistou sua posição por crer que Javé sempre está presente nas horas mais difíceis (1 Sm 17, 45-47).

Davi criou a estratégia de infiltrar-se entre os filisteus dizendo-se contrário ao rei Saul e ser perseguido por ele. Foi aceito e começou a guerrear contra as tribos inimigas de Israel trazendo os despojos para os filisteus. Davi nunca tentou matar Saul pois respeitava-o, os o rei acabou por morrer e durante uma batalha. Diante disso Davi foi coroado Rei de Judá e estabeleceu em Jerusalém a capital do seu reino a fim de provocar simpatia das demais tribos. E conseguiu, tornando-se o Rei de Israel, o que pela leitura da fé já estava previsto em 2 Sm, 5, 1-2.

Como os filisteus haviam se apoderado da Arca da aliança, o primeiro ato praticado por Davi foi devolvê-la a Jerusalém, pois a Arca representava a presença de Deus Libertador ao longo dos anos e o símbolo contra as cidades-estado e a opressão que elas representavam.

Davi manteve o sistema tributário, mas a sua forma de reinado agradou Israel como um todo pois não era burocrático, ele tinha um exército pessoal e o dinheiro arrecadado era utilizado em benefício do povo. Mas Davi descumpriu o contrato com o povo, pois deixou de enfrentar os inimigos quando não ia para as batalhas e a justiça não era feita como devia, como no caso da morte encomendada do marido de Bate-Seba, sua amante.

Nasce a partir de Davi e seu reinado, a esperança e o desejo de alguém que governasse como Davi, praticando o direito e a justiça. Surge a idéia do Messias, o Ungido (Is 9, 1-6).

Com relação à sucessão de Davi ficou claro que seus três filhos ficaram em evidência por motivos distintos. Absalão queria usurpar o poder desconsiderando os demais irmãos. Foi morto. Adonias recebia apoio do sacerdote, e de um general que foram mortos após Salomão ter sido escolhido como sucessor e ter assumido o trono, tendo sido apoiado pela elite do exército, um sacerdote e o profeta Natã.

Salomão foi um rei sábio até porque reuniu escritores com a missão de organizar a história e a cultura do seu e dos outros povos. A religiosidade de Salomão estava presente inclusive pela construção do Templo destinado a albergar a Arca da Aliança e unificar os culto a Deus.

Na administração, mostrou-se dinâmico ao instituir doze prefeituras em Israel que faziam as arrecadações simplificando o sistema de tributação e, ainda, entabulou acordos com outras nações e o comércio de importação teve um crescimento extraordinário (Rs 10, 14-29), porém custoso.

Como dissemos o sistema tributário vigorava e, ainda, havia a corveia que era uma forma de pagar tributos com trabalho forçado, além de poder pagar com gêneros alimentícios. Isso tudo foi desagradando a população principalmente a da região norte de Israel, pois sentiam-se desprestigiados por um reino que parecia favorecer os mais próximo e que criou dificuldades com a centralização do culto. Jeroboão foi o nome que surgiu para liderar a revolta, mas teve que fugir sob pena de morrer por ordem de Salomão.

Ocorre que, pela fé toda essa prosperidade, a parte boa da dinastia de Davi, estava prevista nas escrituras(1 Rs 9, 4-7), mas de forma condicionada.

Com a morte de Salomão, seu filho mais velho assumiu o posto de rei. Ocorre que o povo que morava ao norte exigiu que Roboão se apresentasse em Siquem a fim de que fosse ou não legitimado no reino. O povo fez exigências pois sentia-se oprimido, mas Roboão não atendeu e prometeu piorar ainda mais a situação do povo caso não o aceitassem. Iniciou-se o cisma, a divisão do reino entre o Norte, que passou a ser chamado de Israel e seu rei aclamado tornou-se Jeroboão, enquanto que as duas últimas tribos, a de Judá e Benjamim se uniram e formaram o Reino de Judá, com Roboão no poder.

Assim, aos olhos da fé se o povo não via mais no Rei um representante da vontade de Deus pois não espelhava o desejo em liberdade e justiça, o povo passou a ouvir os profetas(1 Rs 12-15).

Jeroboão tornou independente o Reino do Norte estabelecendo duas cidades como lugares para onde o povo poderia ir adorar Javé (Betel e Dã) pois com isso os sacerdotes de Jerusalém não seriam influência negativa para o povo. Substituiu a Arca da Aliança por dois bezerros que na verdade teriam a função de pedestal, assim como a Arca.

Acabou, com Jeroboão, a dinastia como forma de sucessão no poder, o que de certa forma gerou instabilidade política, havendo eventuais revoltas e tentativas de golpes contra o rei.

Inobstante isso, com os reis que vieram a assumir o trono de Israel, lembra-se de Amri que teve muito prestígio no estrangeiro e criou a cidade de Samaria e, neste caso, com a sua morte o filho Acabe logrou sucedê-lo. Tal sucessão trouxe novo rompimento com Javé, pois Acabe casou-se com Jezabel de Tiro e conseguiu que rei decretasse que o deus Baal fosse declarado deus do país. Idolatria pura e rompimento com Javé, o Deus libertador. Com isso voltou a opressão sobre o povo.

Motivo melhor não houve para que se instaurasse o que podemos chamar de ciclo dos profetas, a começar por Elias que criticava o reinado de Acabe e seu deus Baal. Tivemos Amós em oposição ao reinado de Jeroboão II e Oséias, mas sempre questionando e criticando o sistema de governo monárquico por ser opressor.

Os profetas eram a voz de Deus, do Deus Libertador, daquele que dá vida ao seu povo.

Não bastasse a opressão que o povo sofria, Israel regida pelo rei Faceia, foi invadida pelos Assírios que começaram a cobrar impostos. Israel regida agora pelo novo soberano Oséias que não conseguira apoio egípcio para oferecer mais resistência à ocupação, provocou a ira dos assírios que ocuparam a Samaria e, como de costume, retiraram a maior parte do povo e substituíram por outras pessoas de outros povos causando, por consequência a miscigenação o que fez com que os samaritanos fossem segregados, rejeitados pelos judeus que passaram a considerá-los impuros.

Israel (Reino do Norte) deixou de existir, restando do antigo reino de Salomão apenas o Reino de Judá.

Mas Judá passou por momentos difíceis. O rei Jorão casou-se com Atalia, parente de Acabe e Jezabel. Tratando-se de homem muito adoentado, acabou morrendo e Atalia assumindo o trono e, para garantir sua hegemonia mandou matar todos os descendentes de Davi. Escapou apenas um, Joás, que foi aclamado rei, após o assassínio de Atalia. Mas Joás foi um péssimo rei e foi morto por opositores.

Num pequeno espaço de tempo Judá foi governada por Ozias, Jotão e Acaz, este último fez acordo com a Assíria para evitar ter suas terras invadidas, mas isto custou caro, o preço foi a adoção da cultura e costumes do povo Assírio, incluindo aqui os deuses. O profeta Isaías era a voz que se ouvia muito frequentemente nesse período (Is 1, 10-20).

O filho de Acaz, Ezequias iniciou uma reforma e pretendeu formar uma grande coalizão entre as tribos aproveitando o momento de instabilidade política da Assíria, mas foi contido e por pouco Jerusalém não foi invadida.

Nesse mesmo período o profeta Miqueias (Mq 2, 8-9) criticava os latifundiários que forçavam os pequenos agricultores a vender suas terras em tempo de guerra. A opressão continuava, e por cinquenta anos Judá ficou submissa aos assírios.

Manassés que reinava em Judá aceitou de bom grado a invasão assíria o que fez enfraquecer a religião de Javé. Mas com a morte de Manassés e a continuação da opressão um grupo da zona rural denominado “povo da terra” matou seu filho e sucessor Amon, colocando em seu lugar um jovem, Josias a quem foi apresentado um livro antigo (2 Rs 22), provavelmente a parte central do Código do Deuteronômio (Dt 12-26), e com base nesse livro a justiça foi restabelecida em Judá.

Pela fé, vê-se que Josias cumpriu o determinado por Javé, e isso trouxe esperança ao povo (Jr 22, 15-16).

Mas, num ciclo que parece interminável, os povos dominadores entram em ação. Josias fim de evitar a união entre Assíria e Egito acaba sendo morto em batalha. O Egito ocupa Judá, depõe Joacaz filho de Josias, cobra impostos, colocando novo rei cujo nome era  Eliacim para Joaquim.

Nabucodonosor, rei da Babilônia toma Judá dos egípcios e impõe a cobrança de tributos.

Pelos olhos da fé (Jr 22, 1-5) Javé estava por desencadear sua ira diante de tanta opressão e violência.

A opressão babilônica rendeu episódios de grande crueldade como no caso do rei Matanias empossado por Nabucodonosor no lugar do rei Joaquim. O fato de ter desobedecido ao soberano babilônico fez com que visse seus filhos serem mortos e depois, como se não bastasse, teve seus olhos perfurados. Nessa época O exército da Babilônia tinha invadido Jerusalém, destruindo-a, queimando-a e também o Templo.

Destacam-se nesse período os profetas Jeremias que sempre alertou os governantes de Judá sobre a forma opressiva de governarem, Habacuque que incentivava uma postura menos passiva do povo que se submetia facilmente a tudo e Ezequiel que orientava no sentido de se encontrar uma alternativa de sociedade completamente nova.

Mas a fase babilônica de conquistas e opressão também passou e cedeu ao avanço dos persas. Primeiro através do rei Ciro que autorizou o retorno dos hebreus para Jerusalém e, em seguida Dario que reforçou esse retorno, período em que foi reconstruído o Templo, chamado Templo de Zorobabel, levando em consideração a participação dos profetas Ageu e Zacarias. Esdras e Neemias, hebreus apoiados pela Pérsia continuaram a trazer benesses ao povo em Jerusalém.

Tendo retornado, os hebreus enfrentaram dificuldades relacionadas com o poder central da Pérsia, com a província de Samaria e com os próprios nativos, hebreus. Em relação ao poder central, havia que ser monitorada toda manifestação que ousasse influenciar revolta ou abdicar independência do povo hebreu. Com relação à Samaria, denunciava-se o povo de Jerusalém por tentativas de prejudicar o comércio da Samaria e com isso a arrecadação de tributos. Internamente, o conflito entre os hebreus relacionava-se com o projeto de JAVÉ (uma sociedade fraterna e justa) em contraposição aos sacerdotes vindos do exílio que priorizavam as diretivas do rei Persa, somente.

Os gregos, através da sua política expansionista foram os novos conquistadores que arrebanharam territórios e nações, como Egito, Babilônia, Pérsia e a Judéia, chegando até a Índia, tudo através de Alexandre Magno. A língua grega passa a ser adotada pelos judeus, haja vista a intervenção ampla dessa conquista, no aspecto cultural e religioso, inclusive.
Após a morte de Alexandre, o território conquistado foi dividido entre seus generais. Por cento e cinquenta anos a Palestina e Judeia ficam sob domínio dos Ptolomeus e depois, dos Seleucidas.

Durante esse período de opressão, houve a sucessão de reis e Atioco III começou a derrocada do seu governo com seu desejo de expansão territorial, pois ao chegar à Europa os romanos rechaçaram sua empreitada e em resposta acabou ficando obrigado a pagar altos tributos, deixando, inclusive seu filho como refém dessa dívida. Seu sucessor Seleuco IV a fim de pagar a dívida tentou assaltar o Templo de Jerusalém e foi linchado. Nesse tempo o Templo já estava se tornando um banco e não tardou e os monarcas empreenderam com auxílio de sacerdotes corruptos, o tão pretendido roubo ao Templo.

Mas, iniciou-se uma revolução. Matatias, um sacerdote, matou um judeu e o representante de Roma que estavam adorando um ídolo Grego e, após empreender fuga recebeu auxílio de outros descontentes, e, após sua morte um de seus filho, Judas, apelidado de Macabeu, iniciou uma revolta descrita em 1 e 2 Mac.

Vitoriosos, os Macabeus conseguiram independência econômica e política. Logo em seguida chegaram os romanos e aos poucos sob o pretexto de auxiliar no controle de algumas revoltas locais acabaram por se apoderar da região tornando Jerusalém uma província romana e nomeando Herodes, um estrangeiro da região de Iduméia, como rei.

Com uma nova divisão política, o território ficou dividida em..Iduméia, Judéia( cidades importantes como Jerusalém, Belém, Jericó), Samaria, Galiléia (cidades importantes como Nazaré, Cafarnaum), Peria, Traconites e Decápolis.

É de compreender-se que a dominação do povo da região se deu em função da religião e, por conseguinte através dos sacerdotes. Havia um esquema a ser observado. Esse esquema relativizava os beneficiários do sistema. Ou você era puro ou impuro.

O centro desse esquema religioso e político era o Templo, seguido por Jerusalém, depois Palestina (Judéia, Samaria e Galiléia) e, por fim as nações pagãs. Como exercentes desse poder, o mais alto era o de Sumo Sacerdote, seguido pelos sacerdotes, pelos observantes, como os fariseus, depois pelo “povo da terra” e pelos pagãos.

Expressão desse sistema se materializava na forma como se admitia o acesso ao Templo. No Santo dos Santos apenas o Sumo Sacerdote poderia entrar, depois se sucediam os acessos entre os sacerdotes, pátio dos homens, pátio das mulheres e, por fim dos pagãos, estes jamais poderiam ter acesso aos demais ambientes já nominados sob pena de serem mortos. Como se vê todo esse sistema de segregação não condizia com o que Jesus iria pregar em seus sermões e atitudes(Mt 11, 25).

Assim, estabelecia-se um novo esquema de opressão, ou dominação, através de uma religião oficial que tinha hierarquia e um sistema de segregação. Os saduceus, elite religiosa que dominava o Templo era apoiada pela elite de comerciantes e de abastados que num esquema de parceria regulavam o comércio ao redor do Templo, inclusive o câmbio de moedas. Nessa época, vivia Jesus.

O conhecimento também era adotado como forma de poder. Afinal quem detinha o conhecimento ou o direito de ler e interpretar as Escrituras em uma sociedade onde a religião tem extrema importância seria proporcionalmente poderoso. Assim é que os escribas, intérpretes da Lei embora não pertencessem a classe alta, acabavam por gozar de respeito nessa sociedade.

Já os fariseus, leigos, eram conhecidos por adotar de forma integral a Lei no seu cotidiano.
Existiam como era previsível, grupos de contestação da forma como era conduzida a política de Roma e até do clero sacerdotal. Entre eles estavam os Zelotes, que provavelmente derivaram de fariseus que em conjunto com a população oprimida tentavam minar a improvável estabilidade da situação social, Provavelmente Judas Escariotes e Simão eram Zelotes.

Os Essênios que podem ter derivado de sacerdotes contestadores e leigos, viviam em locais afastados em comunidades com hierarquia e rigidez de princípios esperando o Messias, Mestre da Justiça.

Também existiam os bandidos sociais que faziam emboscadas, assaltos, e eram formados provavelmente por camponeses arrendatários, assalariados e parcela do povo oprimido.

A economia na palestina girava em torno de agricultura (arroz), pecuária (ovelhas, cabras e bovinos), pesca(Mar Mediterrâneo e Lago de Genesaré) e artesanato.

Os grupos sociais dividiam-se em Classe Alta (grandes comerciantes, elite da nobreza e religiosos), Classe Média (Artesãos e Cobradores de Impostos, Mestres e funcionários do baixo clero) e Classe Pobre (empregados de fábricas e Funcionários de baixo escalão no Templo e na Corte).

Havia, ainda, que se considerar a formação da sociedade a partir da descendência, o que seria uma “justificativa natural” para a disparidade econômica. Assim, encontraríamos as famílias de origem legítima, donde provinham os sacerdotes e as mulheres que poderiam se casar com eles, famílias de origem legítima com mancha leve, onde encontramos os descendentes ilegítimos dos sacerdotes, escravos pagãos libertos ou convertidos e as famílias de origem ilegítima com mancha grave, onde encontramos os samaritanos, eunucos, bastardos, escravos pagãos e filhos de pais desconhecidos.

Como se vê, Jesus nasceu e viveu em meio à uma sociedade onde a ideologia era a do puro e do impuro, aliás um círculo vicioso onde não era dada oportunidade de acesso entre os grupos sociais.

Destaca-se o “povo da terra”, que eram os pequenos artesãos, pequenos proprietários agrícolas, operários diaristas, e, existiam, ainda, pessoas em piores situações como os mendigos, ladrões e escravos. A única coisa que eles esperavam era a valorização dentro da sociedade, mas como isso não ocorria eles se tornaram os ouvintes de jesus que condenada fariseus e escribas pela segregação.

Por fim, Jesus de Nazaré, nasceu na região chamada Galiléia e esteve em contato com todas as facetas dessa sociedade, presenciando escribas e fariseus nas sinagogas, observando as injustiças e o clamor do povo pela presença de um rei justo como Davi e corajoso como Moisés e, somente lendo os Evangelhos saberemos compreender a sua presença entre nós.


Crítica

A obra de Euclides Martins Balancin pretende apresentar ao leitor aspectos genéricos sobre a religiosidade do povo de Deus e foi buscar identificar como ocorreram as mudanças demográficas, sociais culturais.

Estranho, mas percebe-se nitidamente a “ausência do metafísico, do espiritual” nessa obra.

Para não dizer que Deus é mero coadjuvante nessa obra, ao final de cada capítulo existiam questionamentos que procuraram contextualizar a história contada com os dias atuais, indagando se o leitor identificava algo contemporâneo que se assemelhasse à crítica social que havia naquela história.

Percebe-se o esforço empregado pelo autor em apresentar um povo oprimido e insatisfeito que busca, desde que passou de uma forma de governo em Tribos para um sistema de monarquia dinástica, voltar a ser livre. Mas essa busca pela liberdade foi culpa do próprio povo de Deus que ignorou o projeto de Javé. Um projeto que oferecia liberdade, justiça e fraternidade com o custo da obediência às leis de Deus.

Diante disso, verificamos que as sucessivas trocas de reis e invasões de reinos com assassinatos e traições, acabaram por criar um povo segregacionista, longe de atender ao projeto de Javé, mas muito mais próximo dos interesses os que detêm o poder para beneficiar-se exclusivamente do que o povo produz.

Como não associar essa história ao capitalismo, ao imperialismo que tanto falam os revolucionários de outrora e de hoje. Os Zelotes de antes são os guerrilheiros de hoje, quando na verdade deveriam ser os políticos não populistas que em defesa do povo deveriam pragmatizar o princípio do bem comum.

O livro em si é um alerta. Estamos fazendo e vivendo da mesma forma que outrora. Estamos segregando, e a visão de classes é muito clara, isto é, quando aceitam alguém em alguma classe e não passam a hostilizar como no caso de xenofobia.

Acredito que há uma inspiração  de luta de classes, entre o capital e o trabalho nessa obra, de um autor que já foi qualificado como Marxista. Com isso, me distanciei um pouco da metafísica de um Deus onipresente, a obra não está permeada do divino, mas de fatos que tentam nos jogar contra a parede e exigir uma posição social de luta e mudança das coisas, pois elas se repetem, há mais de mil anos, o que o homem quer é poder pelo poder e para exercer esse “direito” lança mão das crenças, das superstições, da fome e da desesperança. Confesso, saí um pouco na ignorância bíblia e sociológica.

Enfim, o livro tem a pretensão de nos colocar de frente para o projeto de Javé, que nos oferece desde o princípio uma vida sem opressão, fraterna e justa, mas nós criamos leis e regras que distorcem a finalidade do bem comum e privilegiam os poderosos. Se contextualizarmos, trouxermos para os dias atuais os temas de opressão, injustiça social, veremos que precisamos observar a Lei de Deus e fazê-la permear nossos atos, nossas leis para podermos nos aproximar do projeto de Javé.


RICARDO ZANELLO



Proibida a reprodução parcial ou integral em qualquer meio da presente resenha critica sem a autorização expressa do seu autor. Trabalho apresentado para disciplina de História da Igreja da faculdade de Teologia da UNICESUMAR, em 03/11/2017)